Olimpiada

August 22nd, 2008

Eu não assisti a abertura. Não, eu não lembrei mesmo, provavelmente estava dormindo. Mas como a internet é minha pastora e download não faltará, logo eu resolvo isso.

E nem era sobre isso que eu queria falar. Esses dias me peguei assistindo TV por acaso. Porque é assim que eu assisto TV, muito de vez em quando e por acaso; sou incapaz de lembrar, por exemplo, que quinta às 10h da noite passa… O que é que tem de bom na quinta às 10h da noite mesmo? Enfim, não faz diferença, eu não vou lembrar de assistir! E ainda chamo novela das nove de novela das oito.

Voltando. Eu estava assistindo TV por acaso e me peguei pensando no absurdo de alguns esportes. Por exemplo, o que leva uma pessoa a treinar salto com vara? Não pode ser pra ficar em forma, vamos combinar. Nem pra ficar famoso e rico. Agora você imagina o Joãozinho ou a Mariazinha ficando grandinhos, virando pros pais e dizendo: “Eu quero ser atleta!” Daí os pais, já conformados que não vão ter um médico, engenheiro, economista ou advogado na família vão lá e compram uma bola pros guris. Ou uma bicicleta. Ou uma raquete. Ou uma peteca, que seja! A criança olha com aquela cara de desolação e diz: “Mas eu queria uma vara!” E aí, minha gente? Se bem que deve servir pra pular muro, vai que o rebento se dá bem na bandidagem?

Boxe eu não vou nem comentar! E aí, já é pessoal: eu não consigo entender por que duas pessoas ficam se batendo até quebrar todos os ossos da face, os dentes, terem um derrame ou que tal. Pra mim, a diferença disso e de uma briga de galo, é que o galo não tem escolha.

Mas na categoria de bizarrice olímpico-esportiva eu acho que nada ganha da marcha olímpica. Quem foi que inventou isso, meu deus?! Como eu vi mais de um dizer, parece que o caboclo tá mascando um chiclete com a bunda! Ou com vontade de fazer xixi. Ou com um grilo dentro da tanga. Ou então, minha teoria é que são todos dançarinos de lambada que, com o declínio do estilo, migraram, evoluíram e marcharam! Dá até pra ouvir: “Chorando se foi, quem um dia só me fez chorar…” É piada, só pode ser.

O bem queimado

August 18th, 2008

Apesar da piada ter vindo rápida — eu sei, péssima; não sei o que acontece com os meus neurônios vez em quando —, depois de um fim de semana brilhante, receber a notícia do incêndio que consumiu o Teatro Cultura Artística foi um choque sem precedentes pra mim. Talvez porque eu passe pela sua frente dia sim, dia não, talvez porque uma boa parte dos concertos e recitais memoráveis aos quais eu tive o privilégio de assistir aconteceram no seu grande palco e, com certeza, porque São Paulo perde, pelo menos por enquanto, um de seus oásis.

No entanto, o fato do painel que coroa sua fachada e, com alguma sorte, o acervo fonográfico do teatro terem sido poupados traz alguma misericórdia à tragédia. E digo misericórdia porque me chamou a atenção para a impermanência das coisas, natureza também das artes performáticas. Cada nota ali tocada ou cantada só existiu no momento em que soou. Felizes os que as ouviram. Seu registro, embora muito afortunado, é mero espectro da música que ali teve origem.

Estou fazendo drama, diriam. Eu digo que não. Sem querer desmerecer o silêncio — até porque do silêncio nasce o som, da meditação nasce a idéia, do repouso nasce o movimento —, acredito que cada oportunidade perdida de se expressar é uma possível experiência artística perdida. E pessoalmente, cada afeto contido, cada gesto abortado, cada palavra negada é um pedaço de vida não vivido.

Portanto, o teatro é mais que sua estrutura soçobrada e que, acredito, será reconstruída. O Teatro Cultura Artística é um símbolo e abrigo da excelência artística possível. Seu palco é a conjunto dos pés que ali pisaram; sua platéia, a soma de mil sentidos.

“Yo no buscaba a nadie y te vi…”

August 11th, 2008

— Fica aqui — ele disse.

E por um segundo eu juro que pensei em ficar e ganhar a vida cantando no metrô portenho. Um segundo… Um segundo que pareceu minuto, hora, enquanto eu me perdia naqueles olhos castanhos como os meus, enamorados como os meus. E enquanto os dias passavam, brincávamos de possível no impossível e escondíamos momentos de felicidade nos bolsos das calças para serem encontrados pela manhã.

Tanta doçura, tanta que o vento das madrugadas geladas não era capaz de cortar. O que me cortou foram os fios de lágrimas escorrendo de sua face devota. O que me cortou foram seus olhos me pedindo para ficar, enquanto sua boca pedia, tão gentil e urgentemente, para que eu me fosse antes do fim, antes dos outros:

— Eu não quero ver você entrar naquele táxi e ir embora — ele disse.

Mas ele disse tantas outras coisas, sem ter de usar uma única palavra. Meus dias foram pintados de azul; minhas noites, carmins. Foi na pele que eu aprendi um pouco de espanhol; na dele. Buenos Aires agora carrega uma outra beleza e eu já não sei como não voltar àquele porto. E por mais isolados e irreproduzíveis que por ora sejam, foram dias de doce abandono e intenso resgate. Queria lembrar também daquela outra música, que a despedida e seu universo tão restrito em nós abafou. Mas eu me lembro de você e isso basta — mentira!

As lágrimas que eu beijei foram as mesmas lágrimas que eu trouxe e depositei aqui; foram as tuas que me trouxeram as minhas de onde elas não conseguiam vir. Isso e uma música que fica para sempre, com o teu rosto, gravada, assim como meu perfume me pregou em você.

Mi Buenos Aires querido

July 28th, 2008

A primeira impressão é de um pedacinho da Europa. Mas eu nunca fui à Europa, então essa é definitivamente uma impressão fabricada, apropriada, um saudade do que nunca se viu. A segunda é um pensamento fugaz, perdido em algumas esquinas: “Gente, eu tô em São Paulo!”, que vira fumaça quando o táxi entra na Av. Nove de Julho, quando se anda por San Telmo ou um prédio antigo e bem conservado assoma à vista; é outra arquitetura, outra idade. “Essa sensação acontece em todas as cidades grandes, todas elas são meio iguais no mundo”, ele diz. Mas é quando você começa a reparar nos cortes de cabelo, digamos, pitorescos, que você definitivamente se convence de que está é em Buenos Aires mesmo: será que algum outro lugar do mundo abusa tanto dos repicados? será que os mullets sobreviveram em cativeiro ao fim dos anos 80 tão bem quanto aqui?

Mas Buenos Aires é linda. Linda como uma cidade feita pra mim. Eu tenho esse hábito de me apropriar dos lugares que conheço, sabe? Absorvo como um suspiro e levo embora dentro de mim. Cada cor, cada som e cada cheiro é como um beijo roubado; cada beijo roubado é um retrato cravado no peito; cada peito, mais uma história de amor.

Dias sem você

July 16th, 2008

Como se fosse saudade,
tirei o pó dos dias
e dei brilho no sorriso
para lembrar de você.

Limpei as janelas dos olhos,
troquei os lençóis da memória,
afofei o abraço;
até as plantas dos pés reguei.

Agora só falta te ver.

Este nobre vagabundo

July 13th, 2008

Pra quem faz cara de “mas que moleza!” quando eu digo que acordo tarde no meio da semana. Que tal um ensaio começando às 21h do sábado, acordar às 8h do domingo pra uma missa e só chegar em casa lá pelas 23h, depois de sabe deus quantas horas de gravação?

Vagabundo é a p…!
É, aquela mesma.

+

O mais difícil dessa vida de músico é fazer o tempo render; nos dois sentidos. Você precisa de tempo pra estudar, tempo pra ensaiar, tempo pra dormir — a voz não resiste, não adianta — e tempo pra todas as outras coisinhas que todo mundo porventura tem, ou tem que ter. Mas você não entra às 8h e sai às 17h. Infelizmente, você também não tem carteira assinada e férias todo ano. E você perde tempo a toda hora; é um inferno: passou o dia e você não estudou aquela ária, não leu aquela música, não fez uma porra de um vocalise. A bagunça custa muito caro porque, efetivamente, não tem ninguém estalando a chibata nas tuas costas, te cobrando diretamente.

Aliás, toda a vez que alguém abre o sorrisão e, nas ocasiões mais improváveis, pede uma “palhinha” eu penso cá com as minhas pregas, as vocais: “Ei, me dá teu décimo terceiro?”

É fácil? Não. É possível? Sim. É provável. O que também não quer dizer que eu não pare vez ou outra, questionando minhas escolhas, meus caminhos. Às vezes, eu penso que tenho tantos talentos mais seguros pra me fiar, chãos mais firmes pra pisar… Mas daí eu olho pra trás e as outras escolhas parece que nunca existiram, não eram prováveis de fato, não pareciam… minhas.

Daí você vem e me pergunta: “Mas por que músico? Por que cantar?” E por mais poética, piegas ou absurda que pareça a resposta, ela vem sem pensar, simples e completa, quase óbvia: pra viver; não é?

Travessia

June 24th, 2008

Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
(Milton Nascimento e Fernando Brant)

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Uma amiga minha diz que o drama é o combustível do universo — e como é que eu poderia discordar? Eu diria que o drama é como a entropia, que consome tudo sob o céu da criação; bem dizer o caos.

Então teríamos, de um lado a entropia, o caos, a paixão e o drama; do outro a entalpia, a ordem, a razão e o amor. Um bagunça, o outro arruma. Um é o que se tem, o outro é o que se perde. Um conserva, o outro transforma. Um é o que enrijece, o outro é o que transcende. E o que às vezes está num time, outras vezes está no outro…

Mas o que eu quero dizer com isso?
Nada. Eu só estou aqui de passagem; entropicando.

Na verdade, eu sei: o drama é um vício. E não é assim que a gente lida com o vício, falando dele, admitindo e tirando ele do caminho toda vez que ele aparece fazendo a gente tropeçar? Então, o que eu tento fazer hoje é respirar fundo e fazer coisas simples e que me dão foco quando eu sinto que o bicho tá pegando. Uma de cada vez. Funciona!

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E já que eu estou filosófico, falemos — sem muito esforço, para evitar a fadiga — do dia dos namorados. Vocês vão dizer que isso foi há quase duas semanas. Eu sei, mas eu começo a escrever as coisas e largo mão. Este post por exemplo, eu esqueci, ficou perdido na gaveta.

Mas voltando. Eu não ligo, sério. É claro que, se estou namorando, é fácil (e gostoso!) entrar nessa onda. Mas não é por causa do dia dos namorados que eu vou me sentir amado — tem datas bem mais importantes, além de bem mais pessoais, como aniversário de namoro, por exemplo, e tem o dia-a-dia. Ou melhor: se eu não estou namorando, como é o caso, não é por isso que eu vou querer cortar meus pulsos nessa data específica. É muito pouco para um drama. Se é para sentir falta de um amor eu não escolho o dia — aliás, quem dera, seria bem mais conveniente! Eu sinto falta de um amor quando eu não me basto. É naqueles momentos feitos para serem compartilhados, quando uma alegria pede abraço, uma tristeza pede colo, um idéia pede ouvidos, um desejo pede boca, um problema pede ombro. (E não são todos os problemas, que alguns são só meus mesmo.) É quando um travesseiro pede o outro e uma xícara pede duas. Quando eu não sei mais muito bem o que vim fazer no mundo, daí então eu sinto falta de alguém para fazer do mundo um lugar menor e eu não me sentir ali tão perdido. Olhando assim, quem não há de convir que o dia dos namorados é um nada?

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Eu não queria falar de choro em dois posts seguidos, mas não vai dar para escapar. É que existem choros e choros. Como eu não assisto novela, alguém mais aqui chorou assistindo House semana passada, quando a namorada do Wilson morre? Aquilo dói na pessoa, sabe? Como é fácil manipular as emoções as pessoas! — eu já deveria saber.

Mas eu achei legal o que ela disse sobre raiva não ser a última coisa que ela queria sentir. Penso que quando chegar a minha hora de subir um andar eu não quero ter nada disso também, especialmente pequenas mágoas. Venho me empenhando nisso e acho até que há algum progresso acontecendo. E antes que alguém pense “ó, que bom coração, como ele é bonzinho”, não é nada disso, até porque, convenhamos, que diferença faz pro mundo eu sentir mágoa de alguém ou não? Eu é que não quero ficar arrastando correntes à toa; isso tem a ver única e exclusivamente comigo, assim, egoísta, bem entendido. Vai que eu morro e fico aqui feito assombração! Deve ser que nem repetir o ano na escola: você já viu tudo aquilo e vai ter que ficar ali de novo. Tô fora! Sempre fui bom aluno. Quando eu me for, quero mesmo é ir embora.

Não, não estou fazendo planos de viagem antecipada…
Apenas aprendendo a levar pouca bagagem.

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Pronto, vocês já têm um bom tanto de filosofia barata. Enjoy!
Deixem uma moedinha no chapéu ali do lado.

Disperso

June 5th, 2008

Fecho os olhos para ver melhor.

São tantos os pensamentos que se vão naquele espaço entre os minutos que penso existir um outro eu, em um outro lugar, feito de pensamentos perdidos. Um outro eu que não existiria neste mundo, é certo, mas que é essencial para a minha sobrevivência. Sou eu.

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Há marés em mim. E dia desses revivi emoções antigas. Difíceis, doídas. Foi como assistir a um filme onde a gente chora. Não chorei, mas foi como se tivesse. Imersão pura. Engraçado isso de se assistir… Engraçado, o caralho! Pode ser necessário, revelador, libertador — e várias outras palavras que também acabam com “dor” —, mas eu podia passar sem essa; não há Cristo que me convença do contrário.

Tá, ok, revi, reli, revirei minhas entranhas. Agora vai mais uma pá de cal por cima, que a vida segue é adiante. E eu quero é mais.

E melhor.

Tem uma música na minha cabeça: “Você não soube me amar! Você não soube me amar! Você não soube me amaaaaaaaaaar!”

Olha só que coisa boa: eu soube amar. Eu sei. Deus, como é bom!

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E por falar em Cristo, eu não devia, mas vou falar, só para deixar bem claro que não me considero um espírito evoluído, mas ainda sou dono do meu nariz.

Você, cristã criatura que veio aqui dizer que falta Jesus no meu coração, vê se larga a mão de ser arrogante e não estraga a minha catarse. Ah, que coisa mais chata! Como você mesmo disse, leu um pedaço da minha história. E este pedaço, criança, é muito pequeno, é muito parcial e, acima de tudo, é muito meu. Sim, há um vazio, mas ele não tem o tamanho de Jesus, não, tem o tamanho da minha vida e de tudo o que eu ainda tenho para viver — duvido que Deus tenha te passado o script. E se Deus te mandou dizer que eu sou “dEle”, desculpa, ou você tá ouvindo coisas, ou Deus decididamente tá te encontrando pouca utilidade. Eu não discordo (nem concordo) que Deus pode me preencher esse vazio (sic), eu só discordo da sua interpretação da vontade divina. Estamos entendidos? Não responda, foi retórico.

Que Deus também te abençoe. Ou Namastê. Ou Saravá. E não, eu não estou sendo irônico, estou sendo inclusivo, e não intolerante.

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Porto Alegre continua tendo o céu de azul mais impressionante que eu já vi. As pessoas me perguntam: “mas o que de tão especial você vê naquela cidade?” Como se, para ser especial ela tivesse que ter praia, ou isso, ou aquilo. Eu vejo de olhos fechados. Porto Alegre tem a cara de um segundo lar para mim, onde eu sou extremamente bem recebido e acolhido; mãos cuidadosas onde eu repouso meu coração. Eu entendo, e me basta.

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Entrei na loja para comprar umas velas e acabei levando uma estrela. E as velas. E saí correndo antes que fosse tarde demais. Mas lá está ela, brilhante sobre o livreiro, iluminando o meu céu particular. Não é linda, linda, linda?

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Me alimento de sorrisos. Dos meus sobrinhos — as coisinhas mais ricas e doces. Dos meus amigos. De quem estou conhecendo. De quem revejo — e de quem não vejo guardo um sorriso no bolso. E de mim, quando miro o rosto no espelho antes de sair para a rua e cuidar da vida. Tenho esse cuidado: sorrio, para não me esquecer de ser feliz.

É verdade que eu choro. Mas quem não come torresmo, mesmo sabendo que lhe entope as artérias?

Janelas

May 23rd, 2008

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
(Ser poeta, Florbela Espanca)

Amo-te muito e sem descanso e sempre
E mais que a tudo e que à realidade
E como um louco e com serenidade
Amo-te com a dor de um amor ausente

Amo-te agora e pela eternidade
Como um bom deus sempre presente
Amo-te aflito e amo-te contente
E sem passado e nome e sem idade

Amo-te como uma criança, puro e casto
E com desejo e um amor devasso
E com saudade e mais do que podia

Amo-te enfim como um castigo
Sem fim, errante e sem amigo
Te esperando pra me raiar o dia
(Soneto de amar, Gabriel Dinnebier)

+

E é assim que, subindo no ônibus no meio da tarde ensolarada, na cidade que é sua sem dela ter nascido, você se vê refletido em você mesmo, duas vezes.

Sem coração

May 7th, 2008

Se tem uma coisa que eu aprendi sobre amar nestes meus poucos anos de estrada é que não se pode medir o que a gente sente pelo eco que isso causa nos outros. Amar não tem nada a ver com ser amado e existem tantas formas de se amar, expressar ou exercitar esse amor que qualquer tentativa de comparar gesto e resposta é um absoluto tiro no escuro.

No entanto, é isso o que a gente quer e espera: resposta. E quando não há resposta, há mágoa — pequena, disfarçada, mas vai dizer que ela não existe? Na verdade, nos magoamos com nossas expectativas e jogamos no outro a responsabilidade pelos nossos anseios, os dejetos desse… amor?

O amor assim é uma criança mimada que precisa crescer e aprender a encarar a vida. Precisa aprender que nem tudo o que quer é dela e que o importante é fazer a sua parte. Se não é o que o outro espera, não adianta fazer bico, manha ou pior: fazer ofensa, grosseria. Amor assim, como uma criança igual, incomoda. Tampouco é o outro menos capaz de amar ou receber amor. Se não é o seu amor que ele quer, então não é. Ponto. Fim de história. Inútil enumerar ou discorrer sobre um sem-número de fatores. Estúpido deixar-se machucar em vão. É ridículo, é sofrido, é infantil. E tal qual crianças que se dão ou não, sem porquê, assim é o amor-criança. Ou a paixão.

Amor maduro é amor construído, que sabe o seu valor sem precisar que o outro o reconheça ou o receba. Ama sem medo, dá sem rancor. Quando sentires se alinham e pensamentos se completam, o amor caminha junto e cresce para se tornar o que tem de ser; ambos se beneficiam porque é gostoso, é positivo, é natural. Quando não, ele parte, porque se ama, antes de mais nada; sabe que na dor também há renovação. Não se cega com a decepção. Assim se aprende.

Amar assim enobrece. Aquele outro, emburrece.